Geração Tecnológica: Alertas e Benefícios com Sara Rosendo KidsCoach
O acesso demasiado facilitado à tecnologia, faz-me chamar esta nova geração de crianças de geração tecnológica.
No artigo “O que é demais estraga” (Veja-o aqui!) falava-vos de que tudo o que é de menos e tudo o que é demais pode ter benefícios e malefícios e, portanto, há que ter um equilíbrio.
Com o acesso das crianças à tecnologia é igual. Há coisas que são boas e outra que nem por isso, pelo que devemos procurar o meio termo.
Como professora de Dança a crianças do pré-escolar e 1º ciclo, vejo muito a diferença entre as crianças que nasceram de 2000 para a frente e nós, adultos, que somos de uma ou duas gerações antes. Também temos acesso à tecnologia como ela está agora, mas não nascemos com ela como esta geração de crianças. Elas apesar de não terem nascido com as coisas diretamente nas mãos, o acesso rápido às “modernices” impulsionou e condicionou o seu desenvolvimento e a sua aprendizagem.
A Sara Rosendo, que é Kidscoach, trabalha com pessoas que têm contato direto com crianças (pais, educadores, professores, etc) e por isso têm influência no crescimento e aprendizagem das mesmas.
Afirma que para as crianças a neuro plasticidade formidável, pois o cérebro delas ainda está a crescer e por isso adaptam-se mais facilmente àquilo que são as tecnologias acessíveis à palma da mão como um smartphone, do que os adultos e mesmo idosos. Mas alerta para os retrocessos que esse acesso facilitado pode ter nas suas capacidades como cidadãos no futuro.
A nossa conversa teve vários assuntos que irei apontar aqui, mas resumiu-se na necessidade de educar a sociedade para um equilíbrio. Pois a tecnologia é algo que veio para ficar e teremos sempre de nos adaptar a ela. Mas tudo tem coisas boas e coisas más e por isso é necessário dosear a sua utilização para que se aproveitem as vantagens e não nos deixarmos totalmente dependentes.
Percebemos que as crianças desta nova geração têm muito a ganhar com a tecnologia pois aprendem e desenvolvem-se ao mesmo tempo que esta evolui, contudo, também têm muito a perder quando isso se torna a única opção.
DESCOBERTA DE SOLUÇÕES VS. RESPOSTA IMEDIATA
O silêncio é a mãe da palavra, o tédio é o pai da criatividade, assim como a dúvida é a mãe da invenção.
Se pensarmos no prisma dos problemas e das soluções, o facto da criança se apresentar perante um problema na vida, no seu dia-a-dia e a resolução para esse problema não lhe ser imediatamente transmitida por outros ou por fontes externas, faz com que esta possa pensar por si mesma, tenha uma opinião sobre o assunto e/ou procure formas criativas e diferentes de chegar a uma solução que lhe faça sentido.
Através do telemóvel, essa resposta muitas vezes não é pensada pela cabeça da criança, mas apenas assimilada por uma pesquisa rápida na internet. Ficando a faltar uma ligação mais pessoal com o tema em questão, uma introspeção sobre a importância ou impacto da mesma, a iniciativa própria de procurar a sua resposta, ficando a falta passar por momentos de frustração e de concretização, etc.

Esta facilidade em obter respostas imediatas (via online) que não requerem pensamento próprio, torna as crianças impacientes, sem pensamento critico e tendencialmente mais caladas. Uma vez que, para obter as suas respostas, já não procurarem a solução por si e não perguntam a quem está mais próximo.
Um exemplo, dois irmãos estão em casa do avô que os foi buscar à escola enquanto o pai está a trabalhar e irá busca-los mais tarde a sua casa. Cada um está a fazer o que lhe apetece e surge uma pergunta ou curiosidade a um dos irmãos. Em de perguntar ao irmão se sabe sobre o assunto ou ao avô se sabe a resposta, procura no telemóvel e em dois segundos obtém a resposta sem que tenha havido uma interação humana entre os presentes na casa.
De que forma é que a tecnologia prejudica o relacionamento?
Sara defende que o equilíbrio é fundamental e que havendo regras as coisas podem ser bem conciliadas. Enquanto adultos precisamos de criar esta responsabilidade para usar a tecnologia de forma assertiva e exata e conseguir manter uma rede social tão necessária a todos.
O relacionamento com os outros através da tecnologia, pode ser bom se for mediado e se houver uma consciência do mesmo. Usar o telemóvel para estar em contato com os avos que estão noutro pais, por exemplo, pode ser excelente.

Mas essa consciência tem de ser ensinada. Os adultos devem fazê-lo junto das crianças através do diálogo, com boas perguntas e constatar factos.
Quando a absorção da tecnologia, com informação à distância de um clique se torna um hábito e uma dependência, as relações humanas ficam em risco. Mesmo utilizando o telemóvel ou outros dispositivos para falar com os amigos ou família. Pois passa a ser a opção mais requisitada, passando para segundo plano aquilo que é mais inato – falarmos diretamente uns com os outros.
Se não for mediado com consciência, impede uma aproximação natural das pessoas.
A presença constante da tecnologia distrai as pessoas. Somos constantemente bombardeados com isso, mesmo que não queiramos. As pessoas já não sabem estar à espera, pois sempre que têm um momento onde isso é necessário, por exemplo, à espera para ser atendido no dentista, pegam no telemóvel para estarem “a fazer alguma coisa”. Isso, inevitavelmente passa para as crianças, não só pelo exemplo/observação, mas também pelo facilitismo.
Este simples facto, faz com que as pessoas, mais uma vez não interajam umas com as outras diretamente e as torne impacientes.
Isto numa fase em que a criança está a crescer e a aprender a estar em sociedade prejudica a aquisição de capacidades que são fundamentais para ser um adulto mentalmente saudável. Impede, de certa forma, que a criança aprenda a auto controla-se, a respirar fundo, a observar, a pensar no porquê das coisas, estar calma, a arranjar alternativas internas em momentos de desconforto, a explorar a criatividade, etc.
Com isto, perde a conexão com as pessoas e com aquilo que a rodeia.
A tecnologia interfere com o lado emocional das pessoas?
Sara é da opinião que sim, principalmente em crianças e jovens que ainda não têm essa capacidade de consciencializar aquilo que estão a fazer e a ver através da internet. Ficam tão absorvidas nesse mundo, que o próprio modo de estar e ser passar a ser como aquilo que vê.
Este facilitismo inconsciente, cria um modele irrealista, na cabeça dos jovens e crianças, daquilo que é a perfeição.
Sem mediação ou consciência, a criança ou jovem vai sentir que, se não cumprir aqueles requisitos, vai estar à margem. Assumindo um problema que não é do outro e passa a ser dela.
Mais uma vez, se isto não for consciente interfere na capacitação emocional das pessoas.
Saber ser, saber estar, saber fazer!
Como é que a tecnologia pode ser usada de forma positiva com as crianças?
Ao relacionar a tecnologia com a dança a Sara deu um exemplo muito simples de entender os lados positivos ao usar a tecnologia. Colocando uma coluna a tocar uma música e dançar em família em casa, é uma excelente forma de colocar o corpo a mexer e criar conexão entre as pessoas. E quando mexemos o nosso corpo estamos a mexer a nossa mente, logo estamos também a desenvolver a componente cognitiva.
Ao mesmo tempo, estamos a combater o sedentarismo, tão associado ao uso do telemóvel.
Em Portugal, na lista da União Europeia é um dos três países com mais índice de obesidade infantil.
A falta de conexão entre os membros da família, a constante tendência para estar sentado e imóvel por estar agarrado ao telemóvel e a dependência de ter sempre alguma coisa para fazer com informação constante à frente dos olhos, inibindo a criatividade são fatores combatidos com o Desafio – Família que Dança é mais feliz!
(Conecta-te com os teus filhos com este desafio)
Uma atividade divertida para fazer em família que estimula a criatividade, promove o movimento e cria relações familiares.

Esta é sem dúvida, uma ótima forma de utilizar a tecnologia em prol do desenvolvimento infantil, do seu crescimento e da sua felicidade.
Em suma, podemos utilizar a tecnologia para todos os benefícios que quisermos e mediá-la com conta, peso e medida perante as crianças. O que é importante é conseguir refletir
– Vou utilizar isto para que fim? Quando temos uma consciência daquilo que está a ser feito, podemos tomar decisões perante isso e reformular ações futuras.
A Sara diz que primeiro pensamos, depois sentimos e só depois agimos. Ou seja, há que primeiramente ter uma consciência sobre as coisara para podermos modificar comportamentos. Há então uma reflexão, depois uma decisão e só depois uma ação.
É essa reflexão que nós, enquanto adultos, devemos ter para entendermos os benefícios das coisas e alterarmos aquilo que possa estar a prejudicar.
Ouve a conversa completa que tive com a Sara AQUI! ->