Este tema é controverso, mas sou da opinião de que tudo o que é demais estraga.
Neste artigo vou contar-te uma história que aconteceu comigo e que deu pano para mangas.
No final, quero perceber a tua opinião sobre este assunto.
Esta reflexão surgiu porque nós, adultos, temos muito para aprender com as crianças. Temos é de estar bem atentos para percebermos o que elas tanto têm para nos ensinar com a sua pureza.
Essa história aconteceu com uma aluna minha, que me deu uma grande lição.
Eu era da opinião e, em parte ainda sou, que há coisas que não são demais e tento transmitir isso.
A felicidade, o amor, o carinho, coisas como a solidariedade, a honestidade… etc. Tudo isto, são coisas que, na minha opinião, em demasia não vão estragar. Vão sempre dar um contributo, vão sempre valorizar quem nós somos, valorizar o nosso dia, bem como a nossa recetividade para com os outros a forma como nós vemos o mundo.
Então, achava mesmo que algumas coisas não são demais. E uma delas era a demonstração de carinho ou a demonstração de amor por alguém.
Até aqui parece tudo certo e coerente com os valores humanos a que estou habituada.
Mas esta minha aluna mostra-me um outro lado da mesma moeda.
Sem saber, ela mostrou-me que na verdade esta frase “O que é demais estraga” não pode ser uma afirmação fechada e que há exceções. Esta história fez-me refletir que depende muito da situação e da nossa capacidade de perceber se já chega ou se podemos continuar.
Por isso, como em tudo, há que ter um equilibrio e saber onde é o ponto rebuçado com se diz na culinária. Encontrar o meio termo entre as coisas e perceber o limite.
Contexto físico da história:
Estava a dar uma aula de dança num local que tem visibilidade para o exterior e onde costumam passar pessoas. Por vezes, até pessoas conhecidas dos alunos.
Tema do conteúdo da aula:
Nesta aula estava a trabalhar com os meus alunos um tema sobre poder transmitir o nosso carinho. Várias formas de transmitir o nosso carinho, o nosso amor para com alguém.
Introdução da história:
Nós estávamos a trabalhar esse tema, falando uns com os outros mas transpondo isso para o movimento.
Estava a ser muito produtivo, super criativo e estava a adorar ver a recetividade dos alunos, quando passa alguém lá fora.
Essa pessoa era conhecida de um dos alunos e os colegas sabiam. Tratava-se do avô, que estava acompanhado da avó desta aluna.
Os avós começam a acenar a tentar chamar a atenção da neta para lhe dizer “olá”.
NOTA – Eu não sabia de quem se tratava, as que era alguém que estava a tentar entrar em contato com a sala e que possivelmente podia ser um familiar, um amigo ou alguém próximo.
Contudo, consegui perceber qual é que era a aluna em questão que estava envolvida naquele relacionamento porque os colegas me disseram.
Pois a aluna não estava a reagir. Até pelo contrário, ela até estava a virar a cabeça para que quem estava de fora não a visse.
Ao que os colegas começaram a dizer “É a tua avó!”, “É o teu avô.”. E eu comecei a achar a situação um pouco estranha.
Sendo que a razão mais natural que podia esperar era que a neta acenasse de volta, pus-me a pensar qual seria a razão para tal não estar a acontecer e ter uma reação oposta daquilo que eu poderia esperar.
Revelação do mistério:
Tentei então perceber com a aluna o que é que se passava. Ao que ela me diz:
– Estou chateada com a avó!
E eu pergunto-lhe:
– Porque é que estás chateada com a avó? O que é que a avó fez que tu não gostaste?
A aluna responde:
– A minha avó está sempre a dar-me beijinhos.
Perguntei então se ela gostava dos beijinhos de avó. Porque é que ela havia de estar chateada pela avó lhe dar tantos beijinhos, se supostamente é uma coisa boa.
Ela respondeu então que sim, gostava dos beijinhos da avó, mas não sempre.
Ao perceber isto, pergunto-lhe:
– Humm, então e já disseste isso à avó? Que não gostas que ela dê beijinhos a mais?
A aluna respondeu que sim, que já tinha expressado isso com a avó e até me explica num ar muito tristonho:
– Mas ela continua a dar-me beijinhos a toda a hora.
Inicio da lição:
No meio da conversa, a aluna acabou por confessar que a mãe dela também lhe está sempre a dar beijinhos.
Este episódio veio a calhar na muche naquela aula em questão, porque estávamos a trabalhar as formas de transmitir carinho, afeto e amor com os outros através do corpo e do movimento.
Neste caso, o beijinho, é uma transmissão de afeto e de carinho incluindo através do corpo.
Não é através de palavras ou de expressões faciais, é através de um gesto/movimento, que implica, inclusive, contato físico.
E foi isto que me fez abrir os olhos para refletir sobre aquelas coisas que eu achava que nunca iam ser demais e que nunca iam ser pejorativas, neste caso, esta aluna, demonstrou-me que,
às vezes, podem estragar, podem prejudicar, podem magoar o outro.
Mas esta ainda não foi a conclusão ainda maior que retirei desta história.
Conclusão além da história:
Provavelmente esta avó e esta mãe que amam esta neta e querem muito, por ela ser fofa, por ser uma querida, por ser o amor da vida delas, transmitir este afeto através dos beijinhos, estão a colocar de lado a sensação e emoção que a criança tem com esse excesso de beijinhos no momento.
Neste caso, acaba também por ser desrespeitoso, por parte delas, ao estarem a invadir o espaço pessoal da criança quando esta não o pretende, mesmo depois desta transmitir a sua vontade.
E pelo que ela me disse, é uma coisa constante, ou seja, possivelmente ela também já se cansou de o dizer ao ponto de ficar chateada.
Alternativas:
Nós sabemos que, às vezes, as crianças (dependendo da idade) têm as emoções num grande espectro.
Desde estarem mega contentes, tendo o melhor dia da vida deles até ao oposto “Que porcaria, foi o pior dia, eu odeio-te”.
Consoante as circunstâncias as crianças andam nos estremos.
Concluo então que há coisas em que devemos ter um balanço. Devemos ser nós, adultos, a fazer essa análise, mas muito a olhar, a ouvir, a respeitar o outro. Pois é possível observar todos os sinais, especialmente com crianças.
Neste caso em concreto, não há a necessidade de deixar de transmitir carinho, mas devem observar os sinais (e neste caso ainda mais fácil seria, porque a criança falou, basta ouvir) e respeitar.
Não quer dizer que não voltem a dar beijinhos ou demonstrando o carinho com o afeto e o tato, mas às vezes, é demais.
Basta, por vezes, uma conversa, mas, acima de tudo, ouvirmos e podermos respeitar o outro em determinados momentos quando nos pedem distância ou tempo.
Neste vídeo falo de mais 3 coisas que estão muito presentes na minha vida, mas que,
dependendo do contexto podem ser demais.
Vai lá espreitar e vê se acontece o mesmo contigo.